• 30Jan
    Categories: i ching, jung Comments: 0

    O PSIQUIATRA BICHO-GRILO

    Sentado no chão do pátio, à sombra de uma pereira centenária, o sábio lança varetas e consulta os oráculos do I Ching. Dia após dia, durante horas e horas, sem se cansar. “O Livro das Mutações é um ser vivo e em suas respostas podemos notar a marca de uma personalidade distinta”, escreveu aquele intelectual alguns anos mais tarde, relatando suas experiências com o clássico.
    A cena descrita acima não se passa na China antiga, mas em um pequeno castelo na cidadezinha de Bollingen, na Suíça, durante o verão de 1920. O sábio sentado no chão é o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung,umpioneiro no estudo do inconsciente humano no século 20. Jung, que de cético não tinha nada, acreditava que a mitologia e as religiões da Antiguidade podiam ajudar o homem a conhecer melhor sua própria alma. O psiquiatra sempre se interessou por filosofia oriental – mas foi nas férias de verão de 1920 que começou a lançar as varetas proféticas. Foi amor à primeira consulta. “Encontrei relações cheias de sentido entre o que diziam os textos dos hexagramas e meus próprios pensamentos – fato que eu não conseguia explicar a mim mesmo”, conta Jung no livro Memórias, Sonhos, Reflexões. O fascínio do I Ching levou Jung a formular a teoria da “sincronicidade”, segundo a qual, em determinadas ocasiões, paralelos emergem entre o mundo da mente e omundo real – paralelos que, segundo ele, a civilização ocidental chama de “mera coincidência”. Para Jung, a coincidência não deve ser desprezada: o acaso, muitas vezes, faz sentido. A indicação de um determinado hexagrama pelo lançamento de varetas ou moedas pode parecer algo aleatório, mas também pode iluminar elementos ocultos no inconsciente de quem faz a consulta. Mesmo quando o sentido das frases é ambíguo e rarefeito, o simples ato de refletir sobre elas pode levar o paciente ao autoconhecimento. Jung testou sua teoria no consultório. Certa vez, tratava um jovem com complexo de Édipoque pretendia casar com uma mulher que lhe lembrava profundamente a própria mãe. O psiquiatra sugeriu que o paciente consultasse o I Ching – e o texto do hexagrama resultante era o seguinte: “A jovem é poderosa; não se deve casar com uma jovem assim”. Pura coincidência? Talvez sim. Mas a terapia funcionou.

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